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Com 43% da frota parada, locadoras concedem desconto e fazem parcerias


23/06/2020

Segmento que mais dá retorno no país para as grandes, aluguel diário é o mais afetado pela crise

 

O distanciamento social paralisou 43% da frota das locadoras de automóveis no Brasil, segundo a Abla (associação das locadoras brasileiras). Para contornar a forte retração, as empresas ajustam preços e buscam fazer parcerias para atravessar o momento mais crítico da pandemia.

 

Dados da Abla mostram que, no fim de 2019, a frota do setor no Brasil contava 997 mil veículos. Entre a segunda quinzena de março e a primeira semana de maio, quando foi feito o levantamento mais recente, 430 mil estavam estacionados em pátios das empresas ou em locais improvisados para receber os veículos no pico do distanciamento social.

 

Aplicar descontos nos valores de locação foi a primeira reação do setor.

 

A Localiza reduziu a tarifa média diária por carro de R$ 69 no primeiro trimestre para R$ 47 em abril. Na mesma linha, o valor na Unidas caiu de R$ 70 para R$ 51 em abril.

 

Outra grande empresa do segmento, a Movida também ofereceu descontos no valor dos contratos de aluguel para evitar que ocorresse um retorno em massa dos veículos para a empresa.

 

“Lançamos bônus e plano com redução de valor para o motorista de aplicativo. Ele só paga se roda. Se resolver ficar em casa, paga uma tarifa muito baixa. Com isso, perdemos um pouco de receita, mas conseguimos minimizar as devoluções”, afirmou Renato Franklin, presidente-executivo da companhia.

 

O setor de locação de automóveis no Brasil está apoiado em três tipos de negócio: locação (o de turismo ou diário, chamado pelo termo em inglês rent a car), terceirização de frota e venda de seminovos. O mais impactado pela redução na circulação de pessoas foi o aluguel diário, seguido pela venda de seminovos. Terceirização de frota apresentou mais resistência.

 

Ocorre que locação vinha sendo o segmento mais rentável para as grandes empresas.

 

Projeção do banco suíço UBS, do início de junho, estima que o rent a car represente 76% da receita da Localiza, 72% da Movida e 44% da Unidas. Para a agência de classificação Fitch, a redução da demanda vai afetar a geração de caixa de empresas com maior exposição à locação, mas é preciso ter em mente que o baque é mais expressivo durante o pico do isolamento.

 

Ao longo do tempo, acreditam os analistas da agência, quando o mercado começar a se reestruturar, essas empresas devem contornar o cenário da paralisação, com uma ressalva: pode haver uma reestruturação no setor, porque nem todas têm estrutura para resistir ao momento adverso.

 

“Um eventual excesso de capacidade no pós-crise afetaria primeiro as locadoras de menor porte. No médio prazo, é provável um aumento da participação de mercado de Localiza, Unidas e Movida na locação de veículos”, avaliou a Fitch em relatório.

 

Para quem acompanha o setor no Brasil, a avaliação é que as locadoras serão beneficiadas no pós-pandemia pelo modelo de negócio brasileiro, que opera tanto com contratos diários e de curto prazo como também com serviços mais duradouros.

 

“Há uma grande diferença entre o perfil de negócio das locadoras brasileiras e o das de outros países. O principal ponto é o quanto estão expostas a operações em aeroportos, pois sabemos como está o movimento nesses locais”, disse Carolina Chimenti, analista do setor para a Moody’s.

 

“Nos Estados Unidos, o leasing é feito com as próprias montadoras. As pessoas compram o carro, utilizam e devolvem para a montadora. Aqui, não tem essa modalidade. A operação semelhante é feita pelas locadoras. Essa forma é mais estável e está dando respiro para as companhias agora”, afirmou Paulo Miguel Junior, presidente da Abla.

 

A comparação com os EUA não é à toa. Em 22 de maio, a Hertz entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça americana. A empresa sofre com ordens do governo do país que restringem viagens, fazendo praticamente desaparecer o aluguel de carros em aeroportos, de onde vem grande parte da sua receita.

 

Além disso, no Brasil, os motoristas de aplicativo não concorrem com as locadoras, pois acabam alugando carros das próprias empresas, o que é diferente do que ocorre na Ásia, na Europa e nos EUA, onde eles disputam mercado.

 

Há ainda outro ponto relevante para entender o cenário no país. Enquanto a Hertz, por exemplo, tenta se reestruturar há anos, no Brasil, as companhias de locação surfaram no segmento de locação para motoristas de aplicativo nos últimos anos. Algumas delas, portanto, chegaram à crise com uma situação financeira bastante confortável.

 

Segundo relatório do começo de abril da agência de classificação de risco Fitch, Movida, Unidas e Localiza “possuem robusta posição de caixa e devem conseguir acomodar até um trimestre de demanda muito fraca, sem prejuízo significativo a seus perfis financeiro e de crédito”.

 

Na análise mais recente, deste mês, a Fitch lembra também que em 2019 essas três marcas responderam por mais de 15% da venda de veículos novos e seminovos no país.

 

Mesmo com uma configuração peculiar no Brasil, o setor das locadoras vem se ajustando para atravessar esse período de paralisação. E isso não está restrito apenas à redução de diárias e a descontos.

 

Quando a paralisação começou e muitos motoristas começaram a devolver os carros alugados, surgiu uma preocupação para as empresas: onde colocar tanto veículo? A solução foi fazer negócios com quem também estava sendo impactado pela economia parada.

 

“Tivemos essa preocupação [de onde colocar os carros], mas, como tudo parou, conseguimos negociar estacionamentos por bons preços com aeroportos, shoppings e até com outros varejos. Porque afetou nosso setor, mas os outros também”, disse Carlos Sarquis, diretor-chefe da área de aluguel da Unidas.

 

Mas não foi só essa saída encontrada. Houve quem buscasse parcerias com comércio, bares e restaurantes para manter de pé o serviço de aluguel dos motoristas de aplicativo.

 

“Já fechamos acordos com algumas empresas para entrega exclusiva, mas estamos abertos para outras parcerias”, disse Helio Netto, presidente-executivo da Vai Car, startup de locação, criada em 2018 para atender o mercado de motoristas de app na grande São Paulo.

 

“Não queremos especular, mas, salvo algumas exceções, ninguém tem caixa para mais de 90 dias. Fora isso, você tem que ter ajuda de governo, de banco ou de investidor.”

 

Fonte: Folha de SP




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