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Um quinto das famílias brasileiras já usa lenha ou carvão para cozinhar


23/05/2019

‘Minha vista embaça toda vez que mexo com o fogo’, diz Jurani. Com crise e alta do preço do gás, número de lares nessa situação soma 14 milhões, salto de 27% em dois anos.

 

Na pequena casa no alto da comunidade do Vale dos Eucaliptos, em Senador Vasconcelos, Zona Oeste do Rio, dona Jurani Mange, de 65 anos, mexe o arroz que cozinha lentamente no fogão à lenha improvisado. A madeira seca já era uma saída utilizada quando faltava dinheiro para comprar o botijão. Há mais de um ano, no entanto, seu fogão a gás quebrou e o jeito foi se adaptar. Com o empobrecimento da população, um quinto das famílias brasileiras já usa lenha ou carvão para cozinhar, mostra a pesquisa Pnad Contínua, divulgada pelo IBGE.

 

— Minha vista embaça e dói toda vez que mexo com o fogo. Mas não tem para onde correr, pois não tenho como comprar um fogão novo — lamenta Jurani.

 

São 14 milhões de lares preparando alimentos dessa forma, um aumento de 27% ou de três milhões de domicílios entre 2016 e 2018. No Sudeste, a expansão foi maior, de 60%.

 

— É um sinal claro de empobrecimento da população — resume Luis Henrique da Silva de Paiva, cientista social do Ipea.

 

Alguns metros abaixo da casa de Jurani, Patrícia Aguiar, de 24 anos, cata gravetos secos e pedaços de plástico no chão do quintal, com a filha de 1 ano no colo. O que poderia ser considerado lixo é amontoado e forma uma pequena fogueira, que é acesa com fósforos cedidos pelo vizinho. Sobre o fogo, a jovem equilibra uma grelha e uma panela, onde cozinha o último punhado de arroz do armário.

 

Desempregada, como o marido, viu seu último botijão de gás, doado pela sogra, acabar no mês passado. Até algumas semanas atrás, usava fogão à lenha, mas o vendeu por R$10 para comprar comida para os três filhos.

 

— Do que adiantava ter o fogão sem ter o que cozinhar? — questiona Patrícia.

 

O Nordeste concentra 35% ou 4,8 milhões dos lares que fazem uso de lenha ou carvão. No Sudeste, onde o salto foi o maior entre todas as regiões, no ano passado havia 2,9 milhões de famílias preparando alimentos dessa forma.

 

— O que estamos vendo é o resultado prático de uma crise econômica prolongada, que leva as famílias a buscarem toda e qualquer forma de economia — observa Renato Meirelles, presidente do Instituto de Pesquisa Locomotiva.

 

Segundo ele, o dado está diretamente ligado ao aumento da parcela da população que vive em condições de extrema pobreza, pois a crise foi mais severa com os mais pobres:

 

— A crise veio e, com ela, uma redução da rede de proteção social e a contração da economia, que levou o salário mínimo a ficar sem aumento real.

 

Em fevereiro do ano passado, o governo federal, ainda sob o comando de Michel Temer, afirmou que estava estudando medidas para reduzir o preço do gás para as famílias de baixa renda, mas não foi implementada nenhuma ação.

 

No último mês de abril, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o preço do gás de cozinha vai cair à metade em até dois anos, dentro do plano do governo de fazer um choque de energia barata. Para isso, ele afirmou ser preciso “quebrar o monopólio” do refino do petróleo, mercado concentrado nas mãos da Petrobras, e da distribuição do combustível. O plano também prevê a privatização das distribuidoras estaduais, mas muitos estados resistem.

 

Bolsa Família: efeito ‘modesto’ sobre a pobreza

Quando chove, Patrícia precisa acender o fogo em um canto da sala. A casa toda tem menos de 20 metros quadrados. Para evitar que os filhos respirem a fumaça tóxica, ela os coloca no quarto, no andar de cima.

 

Sua vizinha, Valéria da Conceição, de 42 anos, adaptou um fogão a gás quebrado para cozinhar à lenha. Removeu o tampo e no forno inutilizado põe pedaços de cadeiras quebradas para fazer fogo e cozinhar o almoço e o jantar. Ela até possui um fogão convencional, mas deixa para usá-lo quando frita as peles de porco que vende no trem, nos finais de semana. É seu ganha-pão:

 

— Se eu fizer a comida do dia a dia no gás, acaba mais rápido, e fico sem trabalhar.

 

Para Paiva, do Ipea, o aumento do uso da lenha ou carvão para cozinhar mostra que o principal programa de combate à pobreza do governo, o Bolsa Família, tem tido efeitos “modestos”, mesmo tendo atingido, este mês, o número recorde de 14,34 milhões de famílias atendidas:

 

— O ideal seria aumentar o valor dos benefícios ou mesmo atender à recomendação feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento ou Econômico), esta semana, de aumentar a faixa de renda para elegibilidade das famílias. O grande problema é o que o governo está sem espaço fiscal para fazer isso.

 

O presidente Jair Bolsonaro instituiu, em abril, o pagamento de um 13º benefício, equivalente ao 13° salário, às famílias atendidas pelo programa. O pagamento será feito em dezembro. Mas, na visão de especialistas, o ideal seria diluir esse aumento ao longo dos meses, diante da necessidade imediata de aumento de renda dessas famílias.

 

FONTE: O Globo




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